Introduction to Whaling Logbooks and Journals


By Rachel Adler, Intern, New Bedford Whaling Museum

Livros digitalizados da coleção do Museu

Um diário de bordo é o registo oficial das atividades de uma viagem de baleação. Era o dever do primeiro imediato,  manter o diário de bordo todos os dias. Inclui a posição do navio, que velas usava, a velocidade e direção do vento, as atividades da tripulação e as baleias avistadas ou caçadas. Em contraste, um diário era um documento não-oficial que poderia ser mantido por qualquer pessoa. Frequentemente, os diários eram escritos de forma semelhante aos diários de bordo, com entradas diárias dando a mesma informação contida num diário de bordo e, em alguns casos, a única maneira de determinar se algo é um diário de bordo ou um diário é verificar o nome do autor e consultar a lista da tripulação, vendo se foi escrito pelo capitão.  Os diários de bordo e diários dão uma perspectiva única sobre o que era a vida a bordo de uma embarcação de caça à baleia. Como muitos documentos antigos, eles não são tão acessíveis como a escrita moderna, sendo manuscritos, muitas vezes em papel que foi danificado ao longo dos anos, às vezes com lápis ou tinta desbotada, sendo que os seus autores não usavam ortografia padronizada. No entanto, muita informação valiosa pode ser encontrada nestes registos de viagens baleeiras e como tal merece a nossa atenção e vale a pena o esforço que se faz ao lê-los.

 

Felizmente, as entradas em um diário de bordo de baleação geralmente seguem alguns padrões comuns e uma vez sabendo o que procura é muito mais fácil decifrar o que se lê. Aqui está uma explicação detalhada do que é encontrado num diário de bordo típico ou num diário normal.

O início de uma entrada

A maioria das entradas começa com o dia da semana e data. A partir daí, haverá uma frase introdutória, as mais comuns são “vem com”, “começa com”, “estas 24 horas”, “neste dia” ou “primeira parte”.  O responsável pelos registos então descreve o tempo, o qual geralmente inclui a velocidade do vento e local.  Ele muitas vezes escreve sobre o tempo novamente mais tarde na parte final do dia.

Atividades típicas para um membro da tripulação

O autor do diário de bordo registava as atividades que ele e o resto da equipa realizavam ao longo do dia. Na maioria dos dias a tripulação não estaria envolvida na atividade baleeira, mas entregues a vários tipos de trabalho na embarcação. Podiam ajustar as velas (ver o glossário abaixo), limpar várias partes do navio, pintar a embarcação ou os botes, armazenar barris de alimentos e outros suprimentos, levar mantimentos, bombear água para fora, ou reparar partes do navio.  Por vezes, escreviam que estavam empregados em “deveres do navio”, o que poderia significar qualquer das atividades acima referidas. Membros da tripulação passavam horas a fazer cordas (chamado “spunyarn”). Alguns eram artesãos como ferreiros, tanoeiros ou carpinteiros. Às vezes a tripulação passava o tempo em atividades como scrimshaw, embora esta atividade fosse raramente documentada.

Encontros com a vida marinha

Os baleeiros também prestavam atenção à vida marinha.  Encontraram muitos tipos de baleias, bem como golfinhos de várias espécies e “grampos”. 1 Os principais tipos de baleias 2 encontradas foram a baleia azul, baleia da Gronelândia, baleia comum, baleia cinzenta, baleia de bossa ou jubarte, orca, baleia franca, cachalotes e belugas.

  • Baleia Piloto (Globicephala macrorhynchus): muito encontradas e procuradas.
  • Baleias azuis (Balaenoptera musculus): Baleias azuis são as maiores em tamanho. Os baleeiros americanos, tipicamente, não perseguiam a baleia azul devido ao seu tamanho e velocidade na água, apesar de as mesmas terem começado a ser caçadas em meados do Século XIX.
  • Baleias da Gronelândia (Balaena mysticetus): Estas baleias eram caçadas por baleeiros Americanos no Ártico Oeste, a partir de 1848.  Vivem no Oceano Ártico e foram muito procuradas em meados no Século XVIII no Ártico Leste.  Eram um alvo popular para baleeiros porque nadavam devagar e flutuavam quando eram mortas.  Têm também umas barbas muito grandes (até 14.6 pés de comprimento e 14 polegadas de largura), material que no Século XIX era usado como componente forte e flexível em certos artigos como arcos de saias.
  • Baleias comuns (Balaenoptera physalus): As baleias comuns, de uma maneira geral,  eram somente observadas e não alvo de caça, pois nadam rápido demais para serem apanhadas por barcos baleeiros americanos.
  • Baleias cinzentas (Eschrichtius robustus): Também conhecidas como “peixe diabo” 3.  Por vezes estas baleias eram caçadas.
  • Baleias de bossa (ou baleia jubarte) (Megaptera novaeangliae): Eram por vezes caçadas. O óleo que produziam não era tão bom ou predominante como o de outras baleias, por isso muitos baleeiros deixavam-nas em liberdade quando tinham outras opções.
  • Orcas (Orcinus orca): Os baleeiros, geralmente, não procuravam estas baleias, mas por vezes avistavam-nas durante as viagens.
  • Baleias Francas (Eubalaena glacialis) (Eubalaena japonica) & (Eubalaena australis): Por vezes escritas como “rite,” “wright,” or “write,”.  Eram uma espécie alvo da caça por todo o mundo incluindo no Oceano Pacífico Norte e no Mar Okhotsk.
  • Cachalote (Physeter macrocephalus): Os cachalotes eram a espécie alvo primordial porque produziam um óleo considerado de qualidade superior ao de outras baleias.  As fémeas e suas crias habitam em águas tropicais.  Os machos podem ser encontrados em qualquer oceano mas são solitários, enquanto as fémeas se mantêm em grupos.
  • Baleias brancas (provavelmente Belugas) (Delphinapterus leucas): Por vezes os baleeiros encontravam estas baleias brancas, mas na generalidade não as caçavam durante o Século XIX.  
  • Baleias não específicas: muitas vezes os autores de diários não escreviam os tipos de baleias avistadas ou caçadas.  Nesses casos, estas podem ser inferidas do contexto (ex. se estivessem no Oceano Ártico provavelmente avistavam uma baleia da Gronelândia), mas muitas vezes não era certo que tipo de baleia era avistada.
  • Grampos, golfinhos, morsas e focas: Os baleeiros também encontravam estes animais.  Geralmente não caçavam grampos nem golfinhos, mas muitas vezes caçavam botos, morsas e focas. Quando caçavam morsas, chegavam a apanhar até 75 morsas por dia.

 

Baleação

Quando uma baleia era avistada de longe ou pelo seu “espato”, ou pela sua barbatana caudal ou porque erguia o seu corpo fora de água, a tripulação, de seguida, “abaixava” os botes baleeiros. Um navio baleeiro poderia ter entre três e cinco botes baleeiros: o bote da proa, o bote do meio, o bote de bombordo, o bote de estibordo e às vezes um bote da proa do estibordo. Cada bote

era composto por seis homens; cinco remavam o bote e o sexto, o oficial, dirigia-o. Este oficial era também responsável por matar a baleia após esta ser trancada. Por vezes a tripulação do barco “atingia e retirava” significando que o ferro não se tinha fixado no corpo da baleia e que esta estava perdida. Também podiam “atingir e afundar”, ou seja, a baleia afundava-se no oceano e estava, também, perdida. Às vezes a baleia “levava a linha”, o que quer dizer que nadava, afastando-se, com o arpão e corda ainda presos, acabando por se desprender do bote. Quando um barco baleeiro era bem-sucedido dizia-se ter “guardado” ou “apanhado” a baleia e “levava-a para o navio”. Eles então “cortariam [a baleia]”, esquartejando-a em muitas peças menores para que pudessem ser trazidas a bordo. Passavam, depois, as horas seguintes e, às vezes, dias, de ferver a gordura, a fim de transformá-la em óleo.  O óleo era então guardado em barris. Também aproveitavam o osso de baleia, raspando-o até ficar limpo e então aprontando-o para venda.

Encontros com outros navios

Os navios baleeiros também se encontravam com outros navios. Às vezes, comunicavam com a outra embarcação. Ocasionalmente faziam “gam”, significando que os capitães e primeiros oficiais, e ocasionalmente outros membros da tripulação, iriam a bordo do outro navio, fazer uma visita. Às vezes apenas trocavam sinais, ou seja, agitavam bandeiras de certo tipo que significavam mensagens específicas.  

Os navios baleeiros eram distinguidos pelo tipo de aparelhagem que tinham.  Os principais tipos de navios baleeiros eram as barcas, as escunas e as galeras.  Além disso, havia brigantinas e chalupas.  Navios posteriores, que usavam energia a vapor, eram referidos como “vapores”,  mas tiveram também equipamento tradicional, portanto havia barcas a vapor, barcantinas a vapor, brigantinas a vapor, e escunas a vapor.  Como todos eram englobados na categoria de “vapores”, se um autor de diário menciona um navio a vapor, não há forma de distinguir que tipo de navio a vapor seria aquele a que se referia, a não ser que se fizesse alguma investigação. 4   

 

Terra e atividades terrestres

Navios baleeiros costumavam fazer porto ou ancorar e desembarcar frequentemente.. Às vezes, pode ser difícil descobrir o lugar em questão, porque era conhecido por um nome diferente do utilizado agora, ou porque o autor tinha uma caligrafia fraca, ou porque o autor escrevia o nome do lugar incorretamente, ou porque os nomes dos lugares eram menos comuns do que outras palavras nos diários e torna-se difícil reconhece-los.  A longitude e latitude de um navio podem ser usadas para encontrar um lugar, mas a informação nem sempre está prontamente disponível.  O mapeamento da rota que o navio seguiu é outra boa maneira de decifrar o nome do lugar.  Para chegar a um porto, as embarcações baleeiras costumavam empregar os serviços de um piloto. O piloto era alguém que estava muito familiarizado com as águas da região e não era membro da tripulação. Quando chegados, os baleeiros adquiriam provisões (especialmente alimentos), tinham tempo livre para socializar com a tripulação de outros navios naquele porto ou iam caçar, ou interagir, com indígenas na área. Um problema comum enquanto estavam em terra era a deserção: membros da tripulação fugiam do navio, a meio da viagem, porque não gostavam de viver a bordo de um navio baleeiro.  As queixas incluíam a qualidade dos alimentos, a dificuldade do trabalho e a saudade. Às vezes os desertores eram capturados e punidos, mas muitas vezes conseguiam fugir. Nestas escalas, os Capitães costumavam “enviar” (mandar para casa) o óleo recolhido, despachando-o noutros navios que navegavam para o porto de partida.  Também enviavam homens que estivessem doentes ou feridos ou incapazes de exercer as suas funções.

Durante a última década do século XIX, muitos baleeiros que estavam a viajar no Pacífico Norte e

nos oceanos do Ártico “invernaram” (passaram o inverno) na Ilha Herschel, no Mar de Beaufort. Ficavam lá vários meses, entre as estações baleeiras. As tripulações dos diferentes navios reuniam-se e jogavam baseball e jogos de tabuleiro, tinham bailes, comiam juntos e socializavam. Faziam também caçadas juntos, e iam em expedições de caça, que tipicamente duravam alguns dias. Infelizmente, este clima frio era perigoso e muitos homens sucumbiram ao frio enquanto invernavam na ilha de Herschel.

 

Eventos notáveis

As atividades mencionadas até agora são as normais nas viagens de baleação, mas houve muitos outros eventos que aconteceram também e que são detalhados em muitos diários pessoais e diários de bordo. Acidentes no mar eram muito comuns, muitas vezes levando à lesão ou morte de tripulantes. Por vezes, as notas incluem descrições da medicina praticada a bordo em membros da tripulação, que incluíam tratamento de escorbuto e amputações (estas últimas geralmente devido a frio extremo). Às vezes os capitães traziam a bordo as suas esposas e filhos e, ocasionalmente, aparecem em diários menções a estes. Ocasionalmente membros da tripulação lutavam uns com os outros ou falavam desrespeitosamente com o Capitão ou os oficiais.  Isso resultava em punição, sendo esta, geralmente, ser amarrado ao equipamento do navio, chicoteado, e/ou colocado em ferros (algemas).  Naufrágios também aconteceram, assim como navios que ficaram presos em gelo enquanto no Oceano Ártico, sendo, algumas vezes, abandonados.

 

Selos e desenhos

Alguns diários de bordo e diários pessoais de tripulantes contêm desenhos e/ou carimbos. Os carimbos de baleia eram os mais comuns; estes consistem em pedaços de madeira, osso ou marfim cortado para se parecer com certas espécies de baleias. Eles seriam usados, como carimbos, ​​para manter um registo de quando as baleias eram caçadas ou, às vezes, o responsável pelo diário (ou o seu autor) carimbava apenas a cauda quando uma baleia tinha escapado, sem ser caçada. No entanto, a maioria dos autores dos registos não usou os carimbos consistentemente e ou não carimbava cada vez que se caçava uma baleia, ou carimbava, às vezes, quando apenas se avistava um baleia e não se tentava apanhá-la. Como tal, os carimbos de baleia não podem ser usados ​​de forma segura como um indicadores das baleias vistas ou caçadas. Ocasionalmente, os responsáveis pelos diários usavam os carimbos em forma de navio (que pareciam navios baleeiros) para registar comunicações ou trocas de visitas com outros navios. Desenhos de baleias e desenhos de navios eram frequentemente utilizados em vez de carimbos. Finalmente, alguns diários de bordo têm desenhos de terras avistadas.

 

Miscelânea

Como o papel era um recurso valioso no século XIX, às vezes os diários baleeiros eram utilizados para outros fins antes, durante ou depois de serem utilizados para registar uma viagem. Podem conter

notas escolares, cópias de literatura, poesias ou orações.

 

Longitude e latitude

Muitas entradas dos diários de bordo terminam com a longitude e a latitude de onde o navio estava naquele dia.

Às vezes, também mencionam a distância a que são de certos marcos, ou a leitura do barómetro.

 

Bibliografia

Ashley, C. W. (1938). The Yankee Whaler. Boston, MA: Houghton Mifflin Company.

Dana, R. H. (1841). The Seaman’s friend. Boston, MA: Charles C. Little & James Brown, e

Benjamin Lording & Co.

Hall, E. W. (1982). Sperm Whaling from New Bedford. New Bedford, MA: Old Dartmouth Historical

Society.

Layton, C. W. T. (1955). Dictionary of Nautical Words and Terms. Glasgow: Brown, Son & Ferguson,

Ltd.

Lodi, E. (2005). Nantucket Sleigh Ride: A Notebook of Nautical Expressions. Middleborough, MA:

Rock Village Publishing.

Lund, J. N., Josephson, E. A., Reeves R. R., and Smith, T. D. (2010). American Offshore Whaling

Voyages 1667 to 1927. Volume I: Voyages by Vessel. New Bedford, MA: New Bedford Whaling

Museum.

Lund, J. N., Josephson, E. A., Reeves R. R., and Smith, T. D. (2010). American Offshore Whaling

Voyages 1667 to 1927. Volume II: Voyages by Master. New Bedford, MA: New Bedford Whaling

Museum.
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Notas

1 ​Ninguém sabe ao certo o que os autores de alguns registos queriam dizer quando mencionavam  “grampuses”, mas estavam referia-se  a cetáceos pequenos.

2​ Ou cetáceos parecidos com baleias

3​ Não confundir com a raia Mobula mobular, a qual, por vezes, é chamada de peixe diabo.

Starbuck, A. (1989). History of the American Whale Fishery. Secaucus, NJ: Castle Books.

4​ Um bom recurso para este tema é o livro de Judy Lund, American Offshore Whaling Voyages 1667 to 1927 (volumes I e II).